sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Estado de Fome

"Dando continuidade aos Dez Estados de Vida, hoje enfocamos o Estado de Fome, que é a condição de desejo insaciável.
Os desejos são condições naturais para a vida, se são expressos ou não, todos os seres humanos possuem miríades de desejos.
Naturalmente, muitos desejos são saudáveis, até mesmo essenciais, para a nossa própria existência. Mas, o Mundo da Fome é caracterizado por uma obsessão de realizar os desejos e uma incapacidade em satisfazê-los. As pessoas no Estado de Fome são completamente dominadas por seus desejos e por conseguinte dirigidas à infelicidade e impedidas de desenvolverem-se e prosperarem.
A Fome é o segundo dos Dez Mundos.
Nitiren Daishonin escreveu que “estar avarento é fome” (END, vol. I, pág. 55).
A Fome é uma condição na qual as pessoas são incapazes de satisfazer seus desejos. É um estado de inanição. Neste estado de vida o principal objetivo das pessoas é a busca do desejo. Se a tendência básica da vida de uma pessoa é o Estado de Fome, ele ou ela é completamente controlado pelos desejos insaciáveis nas profundezas de sua vida.
Desejar ardentemente por comida, ansiar por sexo, estar sedento por riquezas, fama, poder e domínio, tudo está compreendido no mundo de Fome.
Devido à coexistência dos Dez Mundos, há uma condição de Fome “iluminada” também.
Um exemplo disso pode ser o desejo espiritual de se encontrar o significado da vida.
No Gosho, Nitiren Daishonin narra a estória de Mokuren (Maudgalyayana), um dos dez principais discípulos de Sakyamuni, conhecido por seus poderes ocultistas, e de sua mãe. Essa narrativa descreve vividamente a difícil situação de uma pessoa mergulhada no Estado de Fome.
Nitiren Daishonin declara: “Mokuren podia penetrar nos Três Maus Domínios abaixo da Terra, assim como podemos ver o peixe nadando sob uma camada de gelo transparente numa manhã ensolarada. Ele descobriu sua mãe em sofrimento, no Mundo da Fome, incapaz de comer ou dormir. Sua pele assemelhava-se a uma ave depenada e seus ossos pareciam seixos. Sua cabeça parecia-se com uma bola, seu pescoço com uma fina rosca e seu estômago dilatado com o vasto oceano. A aparência de sua mãe suplicando com a boca aberta e as mãos juntas pressionadas fez-lhe lembrar das sanguessugas famintas que sangram uma pessoa” (Gosho Zenshu, pág, 1427).
Seu estômago dilatado, vasto como o oceano, lembra-nos alguém no estágio avançado de desnutrição e indica o desejo infinito de uma pessoa no Estado de Fome. Também a impossibilidade de se alimentar através da fina garganta, indica a futilidade em tentar saciar aquele desejo. A estória continua mostrando Mokuren procurando aliviar o sofrimento de sua mãe, mandando-lhe alimento e água. Todavia, sempre que estendia as mãos para apanhá-los, os alimentos queimavam em chamas. Isto mostra como a condição de Fome conduz uma pessoa ao desespero por ter o objeto de desejo próximo, porém inatingível.
O caracter japonês que designa “Fome” é “Gaki”. “Ga” significa “fome”, enquanto que “Ki” significa “demônio”. Um sutra descreve três tipos de demônios ou espíritos da fome, cada um deles é ainda subdividido em três, e outro sutra relaciona trinta e seis tipos.
No Gosho “A Origem de Urabon”, Nitiren Daishonin descreve alguns desses trinta e seis tipos de Fome e as suas causas:
Os espíritos famintos em forma de caldeirão não possuem olhos ou boca. A razão para tal é que, enquanto neste mundo, eles atacaram pessoas sob a cobertura da noite ou cometeram roubos. Os espíritos famintos comedores de vômito alimentam-se do vômito de outras pessoas. As causa para esta condição é a mesma da anterior. É também porque roubaram alimentos de outras pessoas. Os espíritos famintos devoradores da Lei renunciam ao mundo para difundir o Budismo somente porque pensam que pregando a Lei as demais pessoas irão respeitar-lhes. Procurando por fama e fortuna mundanas, eles passam toda a existência presente tentando exceder outras em tudo. Não ajudam as pessoas nem tentam salvar mesmo seus próprios pais. Tais pessoas são chamadas de espíritos famintos devoradores da Lei, ou aquelas que fazem uso da Lei para satisfazer seus próprios desejos.
Existem também os espíritos famintos em possuir bens, que são aqueles que possuem bens, entretanto invejam e acalentam um desejo insaciável em querer mais, e os espíritos menos famintos em possuir bens, que não possuem bens em totalidade. Todos estes diferentes espíritos indicam um número incontável de desejos que todos os seres humanos possuem em um grau ou outro.
O Budismo entretanto ensina que procurar a felicidade através da realização dos desejos é fútil, tudo neste mundo é transitório. Os desejos mundanos (bonno) causam na realidade mais sofrimento do que felicidade.
Os desejos mundanos são classificados sob vários modos.
O Daitido Ron diz que os três venenos da avareza, ira e estupidez originam todos os outros desejos.
O Juyuishiki Ron, compilado por Dharmapala (século VI ), divide os desejos mundanos em dois tipos, fundamentais e derivativos.
Os dez desejos fundamentais consistem em cinco paixões ilusórias - e os cinco falsos aspectos.
Além disso, há vinte desejos derivativos que acompanham cada um desses fundamentais.
Por exemplo, irritabilidade, a tendência em manter a inveja e o desejo de impor a ofensa, que derivam do ódio.
Tien’tai classifica os desejos mundanos em três categorias de ilusão:
1) ilusões de pensamento e desejo
2) inumeráveis ilusões como partículas de pó e areia
3) ilusões a cerca da verdadeira natureza da existência Muitas formas de Budismo concordam que os desejos ou ilusões causam sofrimentos. Mas em consideração sobre o que fazer, as várias escolas diferem amplamente.
Os sutras Budistas primitivos afirmavam que eliminar os desejos corresponde a atingir a iluminação. Mas, mesmo que tivéssemos de eliminar os desejos materiais e espirituais, a necessidade por alimento ou sono existiria durante o tempo em que estivéssemos vivos. Portanto, o Budismo Hinayana ensina que a iluminação pode somente ser atingida após a morte. Como podemos ver, o Budismo primitivo reconhecia a natureza má dos desejos mas não o seu potencial para o bem.
Em seu diálogo com o Dr. Wilson, o Presidente Ikeda diz: “Sem dúvida alguma, o desejo instintivo que se permite que se manifeste sem rédeas em formas tais como gana de poder e dominação constitui uma ameaça à vida. O desejo de um ser controlado, iluminado, compassivo pode ser altamente valioso e criativo.
O Budismo Mahayana ensina que esse desejo controlado, sublimado, pode ser obtido através da união do pequeno ser da vida humana individual com o grande ser que é a fonte universal de toda a vida.” A união que o Presidente Ikeda menciona aqui não é nenhuma outra senão a fusão da pessoa com a Lei Mística através da recitação do Nam-myoho-renge-kyo.
O Budismo Mahayana, que culmina com o Sutra de Lótus, ensina que desejo e iluminação não diferem em sua essência. Portanto, se as pessoas erradicarem os desejos elas também estarão rejeitando a iluminação. Ou, inversamente, as pessoas podem atingir a iluminação somente enquanto permanecerem mortais comuns com desejos mundanos. A iluminação é, portanto, a não erradicação dos desejos mas sim a transformação dos desejos mundanos em iluminação (bonno soku bodai) conforme formulado pelos budistas chineses.
O Buda pode claramente perceber a verdade de que os desejos mundanos e a iluminação são unos. Mas para um mortal comum, os desejos mundanos não são nada mais que desejos mundanos. Eles somente causam sofrimento. A prática budista é por conseguinte necessária para despertar a natureza de Buda que existe dentro de todos nós de modo que possamos drenar o poder benéfico de nossos desejos.
No “Registro dos Ensinos Orais”, Nitiren Daishonin diz:
“Agora Nitiren e outros que recitam o Nam-myoho-renge-kyo... queimam a lenha dos desejos mundanos e contemplam o fogo da iluminação diante de seus olhos.”
Aqui Nitiren Daishonin explana que os desejos são na realidade vitais para atingirmos a iluminação. Mas devemos nos lembrar que não é o objeto de nosso desejo que nos trará a felicidade, mas o desejo de obtê-lo que nos leva a recitar o Nam-myoho-renge-kyo, que por sua vez ativa o nosso Estado de Buda. Os desejos mundanos são simplesmente o meio para revelarmos a nossa iluminação, assim como a lenha não é o que ilumina o nosso caminho ou nos aquece mas é o meio para criar o fogo.
Em outras palavras, se não tivéssemos sonhos desejos ou problemas para subjugar, não teríamos razão para praticar o Budismo. É nosso desejo viver melhor através da recitação do Nam-myoho-renge-kyo. Então, quando recitamos o Nam-myoho-renge-kyo, purificamos nossas vidas e ativamos o nosso Estado de Buda, trazendo imensurável alegria em nossas vidas.
Portanto, com o Budismo de Nitiren Daishonin, o Mundo da Fome pode transformar-se imediatamente no Mundo da Iluminação ou Estado de Buda. Através de seus ensinos podemos usar todos os nossos desejos como uma força direcionada para o nosso progresso. Aqui reside o porquê da recitação do Nam-myoho-renge-kyo ser universalmente praticável por todas as pessoas.
Embora o Mundo da Fome seja normalmente considerado como um estado de vida de infelicidade e miséria, pode apresentar tanto seus aspectos bons quanto maus.
Em seu diálogo com o Dr. Bryan Wilson, da Faculdade All Souls, Universidade de Oxford, intitulado “Valores Humanos num Mundo em Mutação”, o Presidente Ikeda diz:
“ O desejo constitui a mola vital da energia criativa física e espiritual e, nessa conformidade, pode ser a causa de um grande bem ou um grande mal... O Budismo Mahayana ensina que, quando saturado de esforço altruístico, prático, para a salvação compassiva do semelhante e o melhoramento da sociedade, o desejo pode ser sublimado e controlado.”
O desejo para tornar a vida mais confortável ou para aumentar o conhecimento, tem conduzido aos progressos na tecnologia e na medicina. O desejo para aliviar o sofrimento de pessoas doentes, por exemplo, tem levado a novas técnicas cirúrgicas e a medicamentos mais eficientes. E o desejo de sondar o universo tem conduzido ao grande avanço na ciência e tecnologia. Nossos desejos por uma bela casa ou melhor alimentação motivam-nos a trabalhar mais e a, estudar mais, aperfeiçoando-nos dessa forma.
Existe também, naturalmente, toda uma gama de desejos espirituais. Muitas pessoas desiludidas com o mundo material frequentemente procuram a felicidade no campo espiritual. Elas buscam a verdade de sua existência fazendo as questões: “ Quem sou eu” ? e “Por que estou aqui” ? Esperando mais da vida do que propriamente bens ou dinheiro, muitas pessoas buscam uma realização mais profunda. Este desejo leva muitos a empreender obras de caridade ou a lutar por justiça e igualdade. A desolação espiritual que preenche a mente das pessoas atualmente é um típico exemplo do Mundo da Fome.
Porem, todos os desejos, mesmo aqueles mais elevados, podem tornar-se uma paixão consumidora que faz-nos miseráveis, especialmente se estivermos incapacitados de satisfazê-la.
Os exemplos são muitos. O desejo por um “ bom divertimento” conduz muitas pessoas a abusarem de drogas e do álcool. A dependência destas substâncias pode causar problemas no trabalho, na família e prejudicar a saúde das pessoas.
O desejo de buscar a verdade espiritual sozinha algumas vezes leva as pessoas a ignorarem a realidade de suas vidas diárias.
Ademais, as pessoas que perseguem egoisticamente esta verdade somente em prol de si mesmas, são denunciadas pelo Budismo como sendo egoístas demais para atingirem a iluminação.
O caminho para o sucesso, para ser o melhor, são desejos saudáveis, se controlados.
O executivo levado a edificar seus negócios pode oferecer à sua família muitos confortos materiais, mas seu interminável desejo por mais e mais dinheiro pode fazê-lo negligenciar a sua família ou afasta-lo para longe dela.
Os desejos de todas as nações, que refletem os desejos acumulados de cada indivíduo, podem causar tragédias como guerras e destruição, quando as nações crescem sem controle.
As pessoas são elevadas ao Mundo do Êxtase quando o objeto desejado, especialmente uma meta de vida, é atingido.
Contudo, uma pessoa no Mundo do Êxtase pode facilmente cair para o Estado de Fome ou ainda ao de Inferno. Por exemplo, um casal pode trabalhar intensamente por dez ou vinte anos guardando seu dinheiro para comprar uma nova casa.
Naturalmente, quando eles finalmente mudam-se para esta casa, ficam extremamente felizes e satisfeitos.
Mas, se um amigo comprar uma casa maior, eles não ficarão tão contentes.
Eles podem começar a almejar por uma casa ainda maior.
Neste sentido, o desejo das pessoas podem ir mais e mais além.
Tais desejos incontroláveis são típicos do Mundo da Fome.
Se a casa for destruída pelo fogo, a família pode cair no desespero e no abandono da condição de Inferno."
Fonte: T.C. nº 255 pág. 43 a 46 de 11/89
Seleção do texto: Doralice e Paulo Bruno
Digitação - Paulo Bruno.

4 comentários:

Marli disse...

Boa noite Cesinha!! Venho mais uma vez lhe dar os parabéns,depois do teste de perguntas para saber como poderia melhorar ainda mais,as matérias, junto com as imagens estão nota 10!! Parabéns!!

Anônimo disse...

Muito bacana a iniciativa...
Os textos são muito legais...
Obrigada!!!

Kalix o jogo disse...

Bom dia!!

Olá, adoro seu site e todas as matéria. Sou budista a 4 anos etenho uma chakubuku complicada. Ela vem do espiritismo e não consegue entender nada em nossas reuniões. Ela diz que é pra pessoas que praticam há muito tempo e já disse que não é assim. A questão é: Ela ainda vive encorporando espiritos. Nessa semana ela está de cama sem comer e não sei sinceramente como explicar essas encorporações a ela pela lógica do budismo. Façomuito daymoku pra ela e gostaria de uma materia para explicar o que está acontecendo com ela. Me da uma luz. Obrigada!!!
Alessandra de São paulo

Cesinha Chaves disse...

Alessandra
Acontece o mesmo comigo! A minha 1a Chakubuku desse ano também tem uns "problemas" parecidos! Ela também estava envolvida com espiritismo e achava que estava "traindo Deus" com a prática Budista. Ela insistia que estava mal, com depressão e tal. Pois bem, ela foi a um psiquiatra que disse que ela está com Síndrome do pânico, depressão pós traumática e TOC! Ela desconsagrou o Gohonzon dela e está em tratamento, se medicando. Volta e meia ela manda mensagem para mim pedindo para coloca-la no meu Daimoku - coisa que sempre fiz com todos os meus chakubukus. Conversando com uma dirigente, esta me disse que o que podemos fazer por ela é direcionar Daimoku para que ela se re-estabeleça prontamente. Mas a Lei é infalível e nada flexível. Não se sabe o tamanho do carma de cada um! Daishonin diz que quem ofende o Sutra de Lótus - em qualquer existência, vai sofrer no "inferno aviti" por muitas e muitas eras. Não podemos saber o que cada uma das nossas chakukukus fizeram no passado para hoje estarem sofrendo assim. Portanto, continue com seu Daimoku, direcionando as energias positivas para ela, e paralelamente, sempre que possível, dialogue sobre o que está acontecendo ela. Grande abraço e boa sorte!