segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Estados de Erudição e Absorção

Na sequência desta série intitulada Dez Estados de Vida, prosseguiremos abordando conjuntamente as condições de Erudição (Shomon) e Absorção (Engaku), por serem semelhantes no tocante à luta pela auto-reforma.
Como foi estudado anteriormente, as seis condições até agora mencionadas, desde Inferno à Alegria, resultam dos impulsos e dos desejos, mas que estão completamente controladas por restrições impostas ao indivíduo pelo meio ambiente. Essas seis condições são chamadas de Seis Caminhos ou Seis Mundos Inferiores (Inferno, Fome, Animalidade, Ira, Tranquilidade e Alegria). Somente através da nossa determinada luta contra as fraquezas de nossa vida - isto é, as nossas próprias ilusões - podemos abrir uma nova dimensão que transcenda esses seis mundos inferiores. Aqui está o modo mais correto de se criar as condições mais desejáveis do que os seis mundos inferiores, isto é, as dos Quatro Nobres Mundos (que compreendem justamente os Estados de Erudição, Absorção, Bodhisattva e Estado de Buda).
Para melhor compreensão, façamos um estudo separadamente destas duas condições de vida através de uma breve definição de ambas.
O Estado de Erudição ou Conhecimento (Shomon) é a condição experimentada por uma pessoa quando ela luta por um estado duradouro de contentamento e estabilidade através de auto-reforma e do desenvolvimento próprio. Concretamente, erudição é o estado em que o indivíduo dedica-se à criação de uma vida melhor através da aquisição de idéias, conhecimentos e experiências de seus predecessores.


Absorção ou Estado de Realização Parcial (Engaku): Este estado é também chamado de “despertar por si mesmo” (Dokakku). As pessoas neste estado compreendem algumas verdades, independentemente dos ensinos budistas, e as usam principalmente para seu própio proveito. Elas iluminam as ilusões e obtêm a emancipação através da percepção das doze correntes ligadas da causalidade ou despertar por si mesmas para a verdade da impermanência através da observação direta do mundo ao seu redor. Esta condição de vida é semelhante, como já foi dito, ao Estado de Erudição, distinguindo-se deste por não buscar os meios nas aquisições dos predecessores, mas diretamente nos fenômenos da natureza.
A Erudição e Absorção são coletivamente chamados de “Nijo” ou os Dois Veículos porque são as suas características comuns. Nichiren Daishonin afirma no “Verdadeiro Objeto de Adoração”: “O fato de que todas as coisas no mundo são transitórias é perfeitamente claro para nós. Não seria porque os mundos dos dois veículos estão presentes no mundo da Tranquilidade?” Os dois Veículos são os estados em que a pessoa desperta para o fato de que a vida é transitória. E ao refletir baseando-se nessa verdade, a pessoa liberta-se de ser controlada pelas condições mutáveis e pelos desejos inatos como aqueles dos seis caminhos, e estabelece uma certa independência. Entretanto, o despertar das pessoas nos dois veículos é dirigido somente para sua própia salvação.

“Nijo” é um estado mais desejável no qual uma pessoa emerge dos Seis Caminhos.
O fato de exaltarmos o lado positivo destes dois estados não quer dizer que são o suficiente para fazer com que uma pessoa atinja o estado máximo de vida que é o Estado de Buda. Erudição, conhecimento, sabedoria por si sós não levam a auto-reforma nem ao Estado de Buda. È necessário que a sabedoria e conhecimento estejam firmemente embasadas numa verdadeira filosofia de vida e voltada também em benefício de outras pessoas. Todos os esforços que vão à reflexão e à introspecção serão inúteis a menos que o “eu” da vida aumente seu brilho.
Um ponto que é necessário ser esclarecido, é que mesmo que o indivíduo aspire às Quatro Condições Nobres, não se separa das Seis Condições Inferiores de vida. A Erudição, Absorção, Bodhisattva e Estado de Buda são o desejo e os esforços pela auto-reforma, exatamente em meio à sociedade e à civilização, plena de sofrimentos e dos males das seis condições de vida inferiores. Outro ponto é que intelectuais não são os únicos a se encontrarem no Estado de Erudição; e da mesma forma, os artistas e os filósofos não são exclusivamente pertinentes ao Estado de Absorção. Pode-se dizer que mesmo os intelectuais experimentam o Estado de Alegria, quando sentem prazer ao buscar a verdade na natureza e na sociedade. Isto também se mantém verdadeiro com os artistas e filósofos. Quando o artista sente prazer em sua busca concentrada e na criação do belo, ele experimenta o Estado de Alegria. Quando entretanto, através da busca ao conhecimento e à arte, observa o interior de sua vida e dá um passo além, procurando compreender sua vida interna, pode-se dizer que passa a experimentar os Estados de Erudição e Absorção. Por outro lado, se nas buscas ao conhecimento e à arte os intelectuais ou os artistas dedicam-se a salvar os outros, dando-lhes a coragem e a alegria para viver passam a uma condição de benevolência. No Budismo, quando essa benevolência refere-se ao salvamento de uma pessoa conduzindo-a ao caminho da felicidade absoluta, esse estado é chamado de Bodhissatva, que veremos na próxima edição.


Shomon e Erudição, no verdadeiro sentido da palavra, significam ouvir os ensinos orais do Buda e então transmití-los às outras pessoas e às gerações futuras. Portanto, devemos receber sinceramente as idéias, conhecimentos e experiências de nossos predecessores que lutaram para desenvolvê-las. Até que, e a menos que os tornemos parte integral das nossas próprias vidas, não podemos purificar ou abrilhantar a luz do nosso “eu”.
Existem ainda algumas questões que gostaríamos de abordar referentes ao Estado de Shomon, como por exemplo a associação comum de se relacionar a categoria de “Erudição” aos estudantes e intelectuais. Quanto a esse ponto, na obra “Diálogo Sobre a Vida” de autoria do Presidente Ikeda é dito que decerto os estudantes e professores têm mais oportunidade e uma possibilidade maior de entrarem no Estado de “Shomon”. Contudo, pode-se dizer que também aqueles que têm uma atitude modesta e tentam compreender e assimilar as experiências e conhecimentos das outras pessoas podem também entrar na condição de “Shomom”. No entanto, as pessoas que se vangloriam de seu abundante conhecimento, de nenhum modo expressam o “Shomon”. O Budismo define tais pessoas como “Shokuho Gaki”, que significa aquelas que estão no Estado de Fome ou “Gaki”, utilizando o Budismo para seus próprios interesses egoísticos.

Tomando como exemplo, uma pessoa, mesmo que esteja empenhada num trabalho intelectual como pesquisa universitária ou jornalismo, pode ter uma atitude muito à vontade em relação ao seu trabalho e fazer apenas o necessário para receber seu salário. Tal pessoa não tem nada a ver com a categoria de “Nijo”. De maneira semelhante, a pessoa que apresenta ser altamente intelectual ou um grande líder na sociedade, embora esteja na realidade faminta por dinheiro e poder está apenas na realidade nos Três Mundos ou Caminhos Inferiores. Ela passa a maior parte do seu tempo meramente indo e vindo nos mundos tais como “Tikusho” ou Animalidade. É interessante notar também que em alguns Gosho de Nichiren Daishonin “Nijo” é descrito como condição inferior até mesmo nos Três Caminhos Inferiores ou aos Seis Mundos Inferiores, qual seria o motivo?” Ainda com base no livro “Diálogos Sobre a Vida”, o Presidente da SGI, Daisaku Ikeda afirma que, existem basicamente quatro razões para isso. Uma é que as pessoas no mundo de “Nijo” tendem a tornarem presunçosas, persistentemente insistem em suas próprias idéias e sentem que atingiram a mais alta iluminação. A segunda, é que elas têm a tendência de se tornarem surdas aos outros, mesmo que estes exponham o genuíno modo de vista. Mesmo que ouçam, elas assim procedem somente para criticar ou encontrar falha naquelas teorias. Há algumas pessoas que estão satisfeitas com a crítica. A terceira razão atribui-se ao fato de que as pessoas de “Nijo” possuir muito maior poder tanto para o bem como para o mal do que as pessoas nos seis mundos inferiores. Seu conhecimento é abundante, sua razão aguda e seu poder intuitivo é grande. Portanto, uma vez dirigidas pelo diabolismo da vida, seus poderes podem exercer uma grande influência destrutiva sobre a vida do universo. As pessoas nos Seis Mundos Inferiores não são comparáveis às de “Nijo” em poder destrutivo. Por exemplo, se compararmos o poder das pessoas nos Seis Mundos Inferiores a uma arma de fogo ou a uma espada, então, o poder de “Nijo” pode ser assemelhado a uma bomba nuclear. Os cientistas que também pertencem à categoria de “Nijo” descobriram os princípios da fissão e fusão nuclear e aplicaram-nas então na construção de armas de guerra. Se um louco usa uma arma de fogo ou uma espada, pode somente ferir poucas pessoas, mas uma bomba nuclear matará milhões, aterrorizando toda a humanidade. Uma terceira razão é que as pessoas de “Nijo” têm um senso de independência mais forte do que as dos Seis Mundos Inferiores. Mesmo quando estão indo numa direção errada, é extremamente difícil trazê-las de volta ao verdadeiro caminho do progresso humano. Muitas pessoas pensam erroneamente que possuem a iluminação de “Nijo”, quando na realidade estão na condição de “Jigoku” (Inferno).
Conforme o Presidente Ikeda afirma, a não ser que subjulguemos o diabolismo das profundezas da vida, o brilho do “eu ” de “Nijo” não pode se tornar mais fresco e brilhante. Aqui está a chave para compreender qual deve ser a verdadeira condição de “Nijo”. O Budismo busca o modo mais certo de estabelecer uma perfeita subjetividade, e vai além até às profundezas da vida para descobrir a natureza última da vida. Baseando-se nesta filosofia suprema, as pessoas nas condiçoes de Erudição e Absorção poderão direcionar sua sabedoria em prol da felicidade própria e de outrém, bem como em prol do objetivo da paz mundial.

Fonte: T.C. nº 272 pág. 45 a 47 de 4/91Seleção de texto: Doralice e Paulo Bruno. 28/05/97Digitação e arte - Paulo Bruno

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