sexta-feira, 10 de junho de 2011

Budismo e a doutrina cristã da criação

Esse texto foi retirado do site As Mais Belas Histórias Budistas. Mais uma vez sou grato ao Sandro que mantém o site pelo precioso conteúdo de suas postagens.

"Budismo e a doutrina cristã da criação. Qual foi o início?
Por Greg Martin, Editor Assistente

Como foi criado o mundo, em outras palavras, o universo? Esta interrogação tem mantido perplexos aos seres humanos através de todos os tempos. A mitologia, a ciência e a religião nasceram dessa permanente busca.


Os dez primeiros capítulos da Bíblia, Gênesis 1-10 formam a pedra angular das três principais tradições religiosas do ocidente – judaísmo, cristianismo e islamismo. Eles nos relatam a história da Criação. Deus criou o universo e tudo o que nele existe, incluindo a terra, o céu, a luz, as plantas e os animais, em seis dias, descansando no sétimo dia. Ele criou o primeiro homem, Adão, soprando a alma ao pó para depois dar-lhe como morada o Jardim do Éden. Deus criou a primeira mulher, Eva, da costela de Adão, para proporcionar-lhe uma companheira.

Enganada por uma serpente, Eva desobedeceu as ordens dadas por Deus ao comer a maçã da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ao mesmo tempo, ela convence Adão para que faça o mesmo. O castigo infringido por Deus a condena ao alumbramento com dor e à servidão ao marido. Deus expulsa ambos do Jardim.
Transcorreram várias gerações e Deus não estava feliz com os resultados de sua criação, particularmente porque a maldade imperava no mundo. Disse-lhe a Noé que construísse uma grande embarcação, e colocasse nela casais de todos os animais que habitavam a terra e a sua família. Depois provocou uma grande inundação que exterminou todos os seres vivos da face da terra. Após 150 dias as águas se retiraram e a embarcação de Noé ficou depositada no topo do Monte Ararat. Um novo começo se inicia para a humanidade a partir dos descendentes de Noé. Estes são os pontos básicos da historia da criação, tal como a relata o livro do Gênesis. Deus é o criador original de tudo o que existe ex nihilo (criado do nada). Em épocas anteriores esta história era aceita como um fato inquestionável e como a palavra divina e irrefutável de Deus. Hoje em dia há os que ainda professam esta crença.

A captura e deportação do povo judeu à Babilônia por parte de Nabucodonozor no ano 587 AC, onde permaneceram por cinqüenta anos (duas gerações), colocou o povo judeu em contato direto e de maneira freqüente com as influências do oriente – hindus, persas e babilônicos. Durante este período, no seu exílio o povo judeu entrou em contato com mitos e lendas do oriente, particularmente da Índia e do Irã, convertendo-se os mesmos em parte da tradição judaica. Dentro destes encontram-se os mitos da criação e a idéia tomada dos ensinamentos do zoroastrismo, particularmente a profecia de um redentor ou salvador.

A história da criação não é original dos cristãos – ou dos judeus. Os elementos chaves datam de fontes anteriores ao Antigo Testamento e provêem de áreas geográficas, tais como a Índia, o Oriente Médio, e Grécia. A criação do universo, o mundo e os primeiros seres humanos – partindo do conceito de uno que depois se converte em dois – são temas comuns em algumas das tradições mais antigas. As origens do mito do dilúvio são, também mais antigas. Referências aos mesmos se encontram nos textos da escritura cuneiforme dos sumérios ao redor dos anos 2000 – 1750 AC. Todos os elementos essenciais a respeito da história sobre a criação do mundo encontram-se em fontes pagãs de maior antiguidade.


A idéia da criação ex nihilo nem sempre foi parte da doutrina cristã. A comunidade dos primeiros cristãos não tinha uma posição monolítica a esse respeito. Não foi senão até o dia 20 de maio do ano 325 no Conselho de Nicaea que esta doutrina tornou-se oficial sob a supervisão do imperador romano Constantino.

É interessante notar que as famosas palavras de abertura do Evangelho de João nos dão um ponto de partida ligeiramente diferente a respeito da criação: “No início existia o Verbo, o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. “Verbo” é uma tradução do grego logos, e refere-se a um princípio integrador (lei) que cria a ordem no cosmos. A semelhança com o conceito budista do Dharma – o que nós denominamos Lei Mística – é surpreendente.

Tanto o oriente como o ocidente, compartilham histórias mitológicas sobre a criação. Porém, por volta de 1500, quando os pensadores da Reforma questionavam a veracidade destas histórias, os muçulmanos estudavam que o paraíso e o inferno eram assuntos internos a cada indivíduo, os cabalistas advertiam aos seus discípulos a não tomar a mitologia de maneira literal; porém, a maioria dos cristãos ainda insistiam que o narrado nestas histórias ajustava-se aos fatos reais, ou seja, eram certos e verdadeiros em todos seus detalhes e aspectos.

Desta forma, inicia-se o longo conflito entre o cristianismo e a ciência, ou com maior precisão, o conflito entre dois pontos de vista científicos, separados por 6000 anos – um data de 4000 AC e o outro de 2000 DC.

A interpretação literal do mito da criação em qualquer religião ou cultura tem a desafortunada conseqüência de obrigar às pessoas a escolher entre o coração que anseia acreditar, e o cérebro, que vê que o argumento não é consistente com a observação objetiva dos fenômenos.


Os mitos sobre a criação no oriente, ainda quanto um tanto similares na superfície (a final de contas, são a fonte de onde emanam os mitos do ocidente), porém, são essencial e fundamentalmente diferentes dos do ocidente, num aspecto importante. Os primeiros, geralmente não apresentam distinção entre Deus e o ser humano. O divino encontra “aqui dentro”. No ocidente, porém, de acordo com a Bíblia, o Criador é diferente, separado e “lá fora”, dando-se, assim, o caso de que existe uma brecha intransponível entre ambos. O Budismo, porém, tem como intenção ajudar aos fiéis a realizar a vivência de sua identidadeoriginal na própria vida, aquela identidade que é una com a força criativa, ou Lei Mística. Dentro do cristianismo, a igualdade com o Criador não é possível. O cristianismo tem como propósito restaurar a relação com este “outro” ser absoluto.

Qual é o ponto de vista budista a respeito de nossas origens? As antigas tradições da Índia indicam que os budistas entendiam que o universo era ordenado por ciclos recorrentes de mundos que se manifestavam e desapareciam. Cada ciclo tinha seu término em dilúvio ou fogo. Estes ciclos de formações e destruições de mundos duravam bilhões de anos e ocorriam em todo o universo. Das cinzas ou lodo que resultavam da destruição, um novo ciclo nascia. Este ciclo não tem início nem fim. Mundos e universos eram criados e destruídos como parte de um ciclo interminável de nascimento e morte que operava em escala cósmica.

Para os budistas, então, não existe uma criação no sentido da história bíblica. O universo se formou quando as condições necessárias se deram, baseadas na lei de causa e efeito inerente na própria natureza do universo. Da mesma forma como surge, desaparece. Mas não há uma causa original, como não há um final. O universo é infinito, sem limites de tempo e espaço. “O universo em si mesmo é um ser vital que contém o potencial da vida que desenvolve-se de diferentes formas; é, portanto, definido como a entidade de vida mais grandiosa”.


Os cosmólogos, hoje em dia, postulam a teoria de um universo dinâmico, em fluxo constante. Onde, num ponto, o universo parece ter nascido da causa do “big bang” original e encontra-se em constante expansão, em tanto que, em outro ponto parece encontrar-se num processo de contração e extinção. Mas o universo em si não tem começo ou fim. Este ponto está de acordo com a perspectiva budista.

A Lei Mística é o nome que damos a esta lei de causalidade subjacente que opera eternamente através do universo inteiro. Quando as condições são propícias, surgem planetas. Quando as condições são adequadas, a vida evolui. O oceano gera ondas. O universo gera vida. A vida evolui para o despertar e a iluminação.

O potencial para a vida, para a vida iluminada, existe na própria essência do universo – é uma lei mística natural. Dado que o ritmo universal apóia a vida, podemos descrever a natureza do universo como benevolente. Há os que dão, a esta capacidade inerente criadora para construir o mundo, ao potencial de gerar o universo, o nome de Deus; nós o chamamos Lei Mística de Nam-myoho-renge-kyo."

Fonte - Living Buddhism, edição de julho de 2004, págs. 4-7
Tradução: Ariel Ricci ahricci@gmail.com
Revisão: Marly Contesini mcontesini@estadao.com.br

10 comentários:

Dribook disse...

Quero agradecer o marcador de livros e os cartões que chegaram esta semana.
Desejo muitas conquistas e vitórias!!!

MUNDO DA LUA disse...

Simplesmente maravilhoso. Texto sintético, poético, informativo e inspirador num único momento.

Anônimo disse...

Estamos a passos da nova era... Talvez após 6000 anos temos algo substancial em nossa revolução humana para corroborar o senso comum ao subconciente e inconciente coletivo, do que é nossa criação e o que somos de fato... Nossa ciencia, é nossa verdadeira memoria, os corpos fazem parte disto também... Forte abraço.

Apolo disse...

Caro cesinha,
Gostaria de saber, se uma pessoa que pratica o budismo, pode ter previsões?

Cesinha Chaves disse...

Budismo é razão e lógica, o objetivo é fazer com que vejamos a verdadeira essência de todos os fenômenos e saibamos agir de acordo com a Lei Mística. Não sei uma pessoa ser capaz de fazer previsões tenha a ver com Budismo...

Apolo disse...

Meu caro cesinha, muito obrigado pela resposta. O bom que vc tá sempre nos ajudando com o seu conhecimento.

Apolo disse...

Caro cesinha, sempre gosto de ler suas matérias, elas são muito instrutivas.

Jaime Gonçalves disse...

Grande Cesinha !!!

Me chamo Jaime, sou de S. Bernardo do Campo/ SP, e ando de skate há 16 anos.

Este texto é sensacional... desde que me converti ao verdadeiro budismo de Nitiren Daishonin, minha vida mudou completamente (para melhor)... Parece que todas as partes da minha vida inteira agora fazem sentido...

E agora entendo perfeitamente o estado de vida original que há guardado dentro de cada um de nós...

Torço muito pela realização do Kossen Rufu e pela evolução do ser humano como vida inteligente.

Obrigado pelo texto e parabéns por divulgar essas valiosas informações !!!

Grande abraço !

Jaime Gonçalves.

Cesinha Chaves disse...

Sim, esse texto é sensacional! Vale lembrar que o retirei do site http://www.maisbelashistoriasbudistas.com/.
Grande abraço!

Anônimo disse...

Excelente texto!